Mesa Redonda
1.
"Biotecnologia Vegetal"
Participantes:
Moderador: Profa Dra Claudia Marcia Aparecida Carareto
Contribuição da biotecnologia ao melhoramento genético do cafeeiro - Prof. Dr. Carlos Augusto Colombo (IAC/UNICAMP)
O café é um dos principais produtos da balança comercial e símbolo da prosperidade agrícola do país. Apesar dessa importância, a quantidade de pesquisas biotecnológicas nessa cultura são relativamente limitadas. No entanto, a partir do sequenciamento do genoma café, em 2004, que identificou cerca de 31 mil diferentes ESTs ou regiões expressas do genoma, um volume razoavelmente grande de pesquisas em biotecnologia tiveram início no país visando ao melhoramento de diversos aspectos da cultura cafeeira, com ênfase à resistência a pragas e qualidade de bebida, que, nessa segunda abordagem, busca identificar genes da biologia do florescimento da espécie, bem como aqueles responsáveis pela produção de açúcares, diterpenos e proteases dos grãos e outras substâncias também relacionadas com aspectos nutracêuticos ou fatores anti-nutricionais na bebida do café. Além dessas abordagens, marcadores moleculares e bibliotecas BAC têm sido desenvolvidos para localização e mapeamento de genes e de QTLs, atividades de bioinformática têm recebido forte interesse, sobretudo para organização e disponibilidade das informações geradas pelo genoma café como também prospecção de genes, de transposons, etc, além dos estudos de expressão diferencial de genes de interesse específico que se encontram em execução de forma integrada em diversos laboratórios brasileiros. Mais recentemente, pesquisas em proteômica e metabolômica também são alvo de algumas ações de pesquisa. Portanto, as atividades em biotecnologia aplicadas direta ou indiretamente ao melhoramento da cultura do cafeeiro ganharam novo fôlego nos últimos três anos e a expectativa é de que em pouco tempo seus resultados possam ser notados pela criação de novas cultivares ou produtos
derivados dessas pesquisas.
Melhoramento in vitro de citros por hibridação somática e transformação genética - Prof. Dr. Francisco de Assis Alves Mourão Filho (USP/Piracicaba)
As frutas cítricas ocupam o primeiro lugar em volume de produção entre todas as frutas cultivadas no mundo. O Brasil é líder na produção de citros, em especial de laranjas, correspondendo a 1/3 do total produzido. Embora ocupe posição de destaque, há muitos desafios a serem enfrentados, com ênfase para numerosos problemas de ordem fitossanitária, os quais reduzem a produtividade, aumentam os custos de produção e, conseqüentemente, induzem à perda de competitividade. Melhoramento genético pode fornecer soluções eficientes facilitando o manejo e reduzindo os custos de produção, com a produção de cultivares copa e porta-enxerto resistentes. Os programas atuais de melhoramento genético de citros devem combinar ferramentas convencionais com aquelas biotecnológicas visando superar limitações naturais relacionadas à biologia reprodutiva dos gêneros relacionados (Citrus, Poncirus e Fortunella). Entre essas limitações, destacam-se a embrionia nucelar, poliembrionia, alta heterozigose, esterilidade de pólen e óvulo, incompatibilidade sexual e juvenilidade. Nos anos recentes, duas ferramentas biotecnológicas – hibridação somática e transformação genética – vêm sendo utilizadas em programas de melhoramento genético de cultivares porta-enxerto e copa de citros de importância econômica para o Brasil, cujos trabalhos têm sido realizados na Universidade de São Paulo, Campus de Piracicaba (ESALQ e CENA). No referente à hibridação somática, plantas foram regeneradas por embriogênese somática após isolamento e fusão química de protoplastos. A confirmação da hibridação somática foi realizada por avaliação da morfologia foliar, contagem do número de cromossomos e análise de RAPD. Parte destes híbridos somáticos apresenta potencial para serem utilizados como porta-enxertos por combinarem características horticulturais relevantes, tais como tolerância ao declínio dos citros, morte súbita dos citros, tristeza dos citros, e Phytophthora spp., além de levarem à possível redução do porte devido à poliploidia. Outras combinações de genitores levaram à produção de híbridos somáticos que podem ser incluídos em programas convencionais de melhoramento de cultivares copa em cruzamentos visando à produção de triplóides. Por outro lado, mais de 300 plantas transgênicas foram produzidas recentemente, derivadas de experimentos individuais de transformação genética via Agrobacterium tumefaciens das principais cultivares copa e porta-enxerto utilizadas na citricultura brasileira. As construções gênicas utilizadas referem-se a seqüências visando resistência a patógenos. Entre as diversas estratégias na busca de resistência a doenças por transgenia, citam-se a introdução de genes de origem não vegetal que codificam proteínas antibacterianas, genes maiores de resistência e genes que codificam proteínas relacionadas à patogenicidade ou estimulam o sistema de defesa das plantas. As plantas produzidas estão sendo multiplicadas e avaliadas em condições controladas quanto à sua resistência a patógenos de grande importância para a citricultura brasileira.
2.
"Terapias Moleculares"
Participantes:
Moderador: Profa Dra Paula Rahal
miRNAS, novos reguladores da expressão gênica. - Dra Dalila Lucíola Zanette (Hemocentro/Ribeirão Preto)
A primeira parte será uma breve definição e histórico dos RNAs não-codificadores, especialmente dos miRNAs. Depois será abordada a biogênese dos miRNAs, desde o miRNA primário até a formação do miRNA maduro, incluindo também a sua função na inibição da síntese da proteína alvo. Outro tema será a predição computacional de alvos e a sua validação experimental. Para encerrar serão comentados alguns dos principais dados da literatura sobre miRNAs e seus alvos envolvidos na patogênese e evolução do câncer.
Interferência de RNA como arma terapêutica em infecções virais. - Prof Dr Maurício Nogueira (FAMERP/São José do Rio Preto)
A interferência de RNA é um mecanismo conservado de regulação gênica pós transcricional. Também é utilizada como mecanismo de defesa natural anti viral, especialmente em plantas. Esta apresentação tem como objetivo discutir as possibilidades da utilização da interferência de RNA como droga antiviral. Discutiremos resultados obtidos pelo nosso grupo e outros grupos onde o sistema de iRNA foi utilizado com sucesso in vitro e/ou in vivo para o controle de viroses como HIV, influenza e febre amarela.
Historia Natural do Papilomavírus Humano: da Infecção à Profilaxia - Dra Ana Paula Lepique (Instituto Ludwig/SP).
Papilomavírus Humano, HPV, compreende uma família de vírus de dupla fita de DNA, não envelopados, epiteliotrópicos que infectam mucosas ou epitélio de cobertura. Entre os HPV, há tipos que infectam especificamente mucosas ano-genitais e cuja infecção é o principal fator etiológico para o desenvolvimento de carcinoma do colo uterino.
HPV tem prevalência de 10 a 40% em mulheres, sendo que 99,7% das mulheres com carcinoma do colo uterino são positivas para DNA de HPV de alto risco. Além de lesões malígnas, os HPV estão associados a verrugas ano-genitais e na região oro-faríngea.
Estes vírus infectam a células da camada basal através de microlesões no epitélio. Nestas células são expressos genes da fase precoce que regulam a transcrição e replicação do genoma viral. O ciclo produtivo do vírus é intimamente associado ao processo de diferencição de queratinócitos de forma que novos vírions são montados nas últimas camadas do epitélio e liberados quando as células morrem e descamam.
Os HPV podem infectar células da camada basal de forma persistente, assintomática, evadindo o sistema imunológico do hospedeiro de forma eficiente. Neste caso, há um aumento do risco de integração do genoma viral no genoma hospedeiro. Este evento é acompanhado da perda da regulação da transcrição do genoma viral pela proteína E2 de HPV, de forma que a transcrição dos oncogenes virais E6 e E7 aumenta. As proteínas codificadas por E6 e E7 desregulam o ciclo celular da célula hospedeira e levam à proliferação exagerada destas células. Há portanto, um aumento do risco de ocorrência de eventos genéticos que, juntamente com a proliferação celular aumentada, podem levar à transformação malígna.
Devido ao extenso estudo da história natutal destes vírus, foi possível o design de uma vacina profilática contra os tipos mais prevalentes de HPV associados a lesões malígnas e a verrugas ano-genitais. A vacina tretavalente é eficaz e segura e terá grande impacto sobre as doenças associadas a HPV.
3.
"10 anos de Clonagem, e agora?"
Participantes:
Moderador: Profa Dra Ana Elisabete Silva
Clonagem Humana - Dr. Roberto Muller (Setor de Genética do Hospital dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo.)
Em minha opinião, há uma grande necessidade de se desmistificar conceitos errôneos sobre a clonagem para que as pessoas possam de maneira mais criteriosa ler as diversas opiniões sobre o tema, e possam então tirar suas próprias conclusões, sem exageros e sem minimizar os efeitos dos avanços das técnicas de clonagem. E o principal erro que se comete neste julgamento e NÃO separar dois tipos de clonagens, que tem objetivos totalmente diferentes. Refiro-me a Clonagem Terapêutica e a Clonagem Reprodutiva. A clonagem terapêutica seria, de uma forma simplista, a transformação de uma célula em um conjunto de células (tecido), através da clonagem. A clonagem reprodutiva seria criação de um novo ser humano a partir de uma única célula, por clonagem. Muitas áreas da Genética podem ser tremendamente beneficiadas pela clonagem terapêutica. Dessas, a mais promissora é a possibilidade de regeneração de tecidos sem a necessidade de transplantes. Seria possível cultivar apenas tecidos de órgãos isolados, sem que eles fizessem parte de um ser humano completo. Os cientistas já sabem que é possível reprogramar a célula de um adulto de forma que ela comece a se desenvolver novamente. Isso significa que um dia poderá ser possível reprogramar células para que elas cresçam e se transformem em tecidos sobressalentes. O processo seria mais ou menos assim: se pega o núcleo de uma célula somática do paciente e o implanta num óvulo, que se torna um embrião. O embrião receberia drogas (fatores de crescimento) que não deixam surgir um novo ser, e ele cresce com todas as células de um único tipo. Desse modo poderiam ser fabricadas células do tecido formador do órgão danificado para serem implantadas no paciente. Seria um enorme benefício para a Medicina. Imagine criar células epiteliais sadias para quem perdeu as originais em queimaduras! Ou células da medula para substituir as do sangue, em quem tem leucemia. Ou, então, neurônios novos, que recuperem a capacidade mental dos pacientes com a doença de Parkinson ou Alzheimer. Já em relação à Clonagem reprodutiva, uma série de obstáculos técnicos tornam totalmente sem sentido as iniciativas (totalmente isoladas, diga-se de passagem) de tentar a clonagem reprodutiva de seres humanos nos dias atuais. A favor da clonagem reprodutiva humana está a possibilidade teórica de que esta poderia ser uma alternativa para contornar alguns poucos casos de esterilidade (já que a grande maioria dos casos de esterilidade e infertilidade já são plenamente solucionáveis pelas atuais técnicas de reprodução assistida). Contra clonagem reprodutiva humana, estão incontáveis obstáculos éticos, morais e técnicos. Em resumo, pelos enormes benefícios que pode trazer para a humanidade, sou a favor da liberação da pesquisa em clonagem humana terapêutica, e radicalmente contra a clonagem reprodutiva.
A Evolução da Clonagem no Brasil. - Prof. Dr.Joaquim Mansano Garcia (UNESP/Jaboticabal)
Será apresentada uma análise comparativa da evolução dos principais eventos ocorridos na clonagem reprodutiva no mundo e no Brasil e seus principais problemas.
Transgenia e Diversidade Genética como desatar este nó. - Profa Dra Eliana Saul Furquim Werneck Abdelhay (INCA/Membro CTNBio)
A possibilidade de criar novas moléculas de DNA através da tecnologia de DNA recombinante abriu caminho para discussões sobre a manutenção da diversidade genética e não degradação do meio ambiente. Medos e mitos tem tornado esta discussão numa polêmica que separa ambientalistas e cientistas aparentemente dificultando o progresso em distintos campos. Apesar das ponderações muitas vezes embasadas em documentos científicos até o momento não foi possível demonstrar maiores degradações causadas pelos transgênicos que pelos organismos naturais no entanto programas de monitorações a longo prazo devem ser elaborados e fiscalizados de forma a garantir a segurança no uso desta nova tecnologia.